Quando eu era pequena, estava na pré-escola, tinha na minha classe uma menininha de nome Tatiana, com quem estudei durante mais alguns anos e sempre foi uma garota muito boa gente, gostava muito dela.
Enfim, na nossa classe, a Tatiana era rejeitada e preterida pelas demais crianças da sala, porque "falava sozinha". Provavelmente, ela tinha um amigo invisível. Então, ela ficava lá, no fundo da classe, meio distante dos demais.
Um belo dia, a Tatiana apareceu na escola com um aparelho recém lançado: "Meu Primeiro Gradiente"; era um gravador, muito bonitinho, nas cores vermelho, azul e amarelo, se bem me recordo. E, naquele dia, deu-se uma das cenas mais nojentas de que tenho lembrança, na vida! A maior parte das crianças (se não todas) se reuniu em torno dela para ver o aparelho com a maior cara lavada e falavam com ela normalmente, como se fizessem isso sempre. A Tatiana era uma criança tão boazinha e certamente, muito inocente naquela idade, porque ela ficou contente e sorrindo docemente para todos ali. Eu, que já vinha sendo preparada por minha mãe, para ficar sempre alerta para estas coisas da vida, fiquei revoltada. Mas infelizmente, não fiz nada, fiquei só contemplando de longe, talvez até meio paralisada de nojo, com tanta maldade.
Aí cresci e, até hoje, ouço para todo lado que "crianças são puras". Aí, eu sou obrigada a dizer que depende muito. Depende do ambiente em que elas crescem e são criadas, das pessoas com quem convivem e dos hábitos que observam e aprendem reconhecer como "normais".
Hoje em dia, fala-se muito em bullying, como sendo sofrido apenas por determinados tipos de gente, mas não é bem assim. Tatiana não tinha nada que a tornasse muito diferente da maioria ali; era uma menininha de aspecto saudável,vivia num bairro bom, a família era, pelo menos, de classe média e, mesmo assim, ela sofria bullying por fazer o "anormal", por sair do padrão.
Eu mesma, sofri o tal do bullying. Eu era extremamente tímida na infância e parte da adolescência. Era sempre uma das últimas a ser escolhida para os times e grupos em atividades escolares, principalmente, esportivas; certa vez, uma professora de português em alto e bom som, durante a aula, me comparou a uma múmia, porque eu ficava "muda" na aula (certamente, não tinha nada a ver com o fato dela me dar arrepios, fora passar meia aula, gastando 20 folhas de sulfite toda vez, para "limpar" a mesa reservada aos professores, na nossa sala, antes de se sentar e colocar seu imaculado material ali). Isso, só para citar alguns exemplos, porque o tal do bullying eu sofri por inúmeros motivos nesta vida, na adolescência e na fase adulta. Aliás, acredito que todo mundo o sofre de uma forma ou de outra.
E aí, voltamos à honestidade. Mas o que tem a ver? Isso que as crianças fizeram é o princípio da corrupção: deram melhor tratamento a alguém por possuir um determinado bem. Tem a ver que, para não sofrer discriminação, não ser rejeitado, segregado, separado do montão, vamos sendo catequizados, desde a infância, a fazer o que todos fazem, a seguir regrinhas que aprendemos por observação, seja em casa, na escola, na igreja, na rua ou nos programas de tv. Se alguém é considerado "impróprio para convívio", então deve ser prontamente deixado de lado, pelo nosso próprio bem.
Portanto, quem sonha com uma sociedade, um povo, um país, um mundo honesto, poderia, em primeiro lugar, começar a se policiar e observar as próprias ações e palavras, os exemplos que dá, porque este é o seu legado. Este mundo é como é hoje, graças, não só, aos nossos ancestrais, mas também a nós, que seguimos dando e permitindo a continuidade deste tipo de engano e depois ficamos reclamando por aí, "lavando nossas mãos" e pregando que somos muito inocentes e não temos, nem nunca tivemos nada com isso.
Jesus era um homem inteligente, observador e conhecia bem o ser humano e não foi à toa que ele disse:
" E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?
Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?
Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão." (Mateus 7;3-5)
Faça sua parte direito e, ao menos, não estará mais contribuindo para a propagação de coisas ruins por aí.
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